Por....José Pinto da Silva

Casa Zé Moleiro 1954 -1º. plano Casa Zé Moleiro inventada pelos técnicos

Completam-se hoje 60 anos sobre a maior cheia de que há memória, ocorrida no rio Uíma, com incidência sobretudo em Caldas de S. Jorge e Fiães, onde deixou estragos de vulto, tendo-se, daí para juzante, espraiado pelos plainos das ribeiras até à Ponte Nova que, mesmo já em situação de maior espraiamento, não resistiu e foi levada na enxurrada.

Decidi, em 2010, – adiante dir-se-á porquê – que, enquanto mantiver as condições mínimas para tal, não deixarei passar a data de 24 de Outubro sem lembrar a maior cheia do século (mesmo antes não há registo de tamanha), não com intento de amaciar o ego, mas para preservar a história da nossa terra, das insinuações tolas, que só a toma de dose avantajada de Vermol, do lote que transgrida a lei da gravidade e suba, ao invés de descer, para ir atacar a maléfica bicharada que, nos casos em apreço, se instalou no sótão dos insinuadores Não por ser mais limpo. Até pelo contrário, dada a característica dos bichos.

Feito este a modos que intróito, vou entrar no facto chave e que foi a tromba de água que, na manhã de Domingo, 24/10/1954, despencou sobre esta região, sendo os vales do Rio Uíma e dos seus afluentes de S. Jorge e Fiães os espaços mais afectados por danos. Em Fiães foi sobretudo nas margens do Rio Às Avessas, por ser mais declivoso, de onde desapareceram todas as pontes e moinhos, com a água a subir 5 metros acima da cota habitual, segundo a imprensa diária do dia seguinte. Em S. Jorge, a Ribeira da Fonte Fria causou fortes estragos e amedrontamentos na Ribes, mas a base da minha apreciação é o Uíma e a sua enchente, particularmente entre o Engenho e o Terremunho, com prevalência para o espaço entre o moinho da Ti Arminda do Munho e o lavadouro / coradouro da Sé. Como pontos base de referência saliento os campos do “Lóreiro (margem esquerda) e do Ti Fulgêncio (margem direita), logo a seguir ao poço, a zona da Ribeira no local do moinho do Zé Moleiro e depois a cota da água na estrada e no parque das Caldas.

Os técnicos, ou quem escreveu relatórios ditos técnicos, colhendo declarações compradas (não quer dizer com troca por numerário), fazendo pesquisa jornalística sem procurar nenhum jornal, relatando a partir de pressupostos erróneos, cometeram as maiores barbaridades contra a verdade, sendo que a maior tranquibérnia foi a inclusão de uma fotografia falsa, classificando-a como a Casa do Zé Moleiro. Houve ali manifesta má fé, intenção desbragada de ser desonesto, claro ataque directo ao fenómeno que foi a cheia. Sobretudo conhecendo pessoas ainda vivas e já adultas ao tempo. Pessoas que eu ouvi. Diz então um dos relatórios, falando das casas do Valinho, do Lajeiro, do Zé Moleiro e do edifício das Caldas, que apenas as caves de todos esses edifícios terão sido atingidas. Reitero, com testemunhos ainda viventes que, a água andou pelo telhado do moinho do Zé Moleiro e dito por um testemunho, que andou próximo do cume. O próprio Zé Moleiro (meu pai) depois de tirar o gado dos aidos e de os enxotar para a pedreira (onde hoje está a pensão) nadou para o moinho e lá andou a evitar a saída de sacas de farinha e milho pela porta e quando saiu estava a água já na padieira da porta do moinho. A porta é capaz de ainda ser a mesma. E relativamente à casa de habitação e currais, a água subiu quase até ao solho do andar. Na ponte, a enxurrada derrubou o muro e subiu um metro acima do piso, atingiu a soleira da janela da padaria do Valinho, atingiu quase um metro no rés-do-chão da casa do Lajeiro (parece que confundem com a casa da Dorinda Oliveira que era a do Lajeiro), chegou ao cimo do tanque do chafariz existente na altura e avançou por cima do muro que circundava o parque das Caldas. Todo o parque ficou como um lago em turbilhão, pois toda a madeira de cimbre que estava encastelada na frente das escadas do átrio foi levada de escantilhão por cima do muro das Caldas (contou uma voz ainda vivente e que esteve no turbilhão, a entregar a corda ao Chino para resgatar o Elísio Mota que estava agarrado ao pilarete para não ser arrastado pela água que passava por cima do muro). Recordar que o edifício andava em obras para ser inaugurado depois em 1956. E, mesmo assim, só inundou as caves! !, ou a arte de ser prestímano, com miolos atacados de atonia. Tenham, os técnicos todos, a disponibilidade para consultar o Comércio do Porto do dia 25. Conta o episódio do “rapazito” cercado pelo turbilhão (Elísio Mota) e diz: (cito) “ nas Termas de S. Jorge a tromba de água inundou terrenos e ruas, invadindo o casaria da parte baixa da localidade. Em alguns sectores e próximo do pequeno rio a água atingiu os 5 (cinco) metros”. Exactamente no local onde, mais tarde, foi construída a ínsua. Mas, cuidado, na alta visão dos técnicos, a cheia só inundou as caves. Trampolineiros…!

Leu-se há dias que o presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros foi condenado a três anos de cadeia (não teve ainda trânsito em julgado) por, há anos, ter licenciado a construção de um prédio em zona REN.

Todo este imbróglio ligado à cheia teve início no verão de 2009 quando alguém (a Câmara saberá quem) denunciou à CCRDN o início da construção do edifício do Ilha Bar (ZIP), invocando tratar-se de espaço REN e leito de cheia. Se está no meio do rio e à cota das margens, leito de cheia é de certeza.

Face a tal a CCDR disse ao denunciante: “…(a construção) não parece ter enquadramento no anexo II do D.L. 166/2008 e não cumpre com o PDM de S.M. Feira, pelo que não pode ser autorizada. A Câmara Contestou. Mais tarde, em resposta a ofício da Câmara, a CCDRN conclui, depois de diversas considerações e alusões a diplomas legais: “…face ao exposto e atenta a desconformidade legal da construção objecto do concurso público aberto por essa Câmara Municipal, solicita-se a V. Exa. (presidente) que se abstenha de praticar actos que promovam quaisquer intervenções no local mencionado” Claro que a Câmara fez orelhas moucas e olhos cegos e a obra manteve o andamento de cruzeiro. Houve muitas idas ao Porto (como foram lamentadas!) e houve interferência de gente de dentro da CCDRN para fazer inverter pareceres anteriores e influenciar outro organismo também tutelar, como seja a ARHN (agora APA) que tutela o domínio hídrico e era preciso o título de utilização dos recursos hídricos. Foi a este organismo tutelar que a Câmara em 4/11/2009 enviou o ofício 26346 e entre outras aldrabices, disse: “ O acesso situa-se acima da cota da maior cheia conhecida para o local”. Foi depois de ler este embuste que fiz protesto, o mais alardeado possível, porque além do mais, desconjuntava a realidade que foi a cheia de 1954. Há fotos do coradouro à época, Não havia nenhuma barragem a impedir o escoamento e a água chegou mais a menos a meio do coradouro. Galguem e vejam se o edifício então em construção não ficaria alagado até ao tecto! Mesmo assim, o acesso ficava acima da cota da maior cheia! A coroa no topo do bolo foi o vergonhoso discurso da inauguração (20/05/2010) em que EU fui o ausente mais presente, visado pelas insinuações mais torpes que só acasalavam com o diseur.

Fui recebido pelo Director da então ARHN e, claro que não revelo detalhes de uma conversa amistosa e, sobretudo, muito esclarecedora. E pela mesma altura, um vereador em exercício perguntou-me o que me bastaria para encerrar o assunto. Eu disse que me estava marimbando para o edifício e que me bastaria que a Câmara, reconhecesse por escrito, que “o acesso se situa bem abaixo da cota da maior cheia conhecida para o local”. Mas isso é reconhecer a ilegalidade, retorquiu. E eu só argui que é problema deles.

No próximo ano haverá sempre algo de novo a lembrar. (Outubro de 2014)