arruamentoPor Rui Vaz Ribeiro

O presidente da Junta de Freguesia de São João de Ver disse há dias, em entrevista ao Correio da Feira, que as obras do arruamento que ligará a igreja matriz à Avenida Sá Carneiro estão suspensas por aguardarem viabilidade financeira para voltar ao seu normal andamento.

Falar em “normal andamento” daquela obra só pode ser piada, porque aquele arruamento é a materialização das obras de Santa Engrácia em São João de Ver. Em nada comparáveis, feliz ou infelizmente, à execução das obras ocorridas no Estádio do Ervedal, que com um orçamento da mesma ordem de grandeza do do arruamento – 200 mil euros, números redondos -, foram escrupulosamente cumpridas em 4 meses, bem a tempo de uma inauguração que não se distanciou muito do início da campanha eleitoral autárquica. (Coincidências, certamente.)
Voltemos ao arruamento: temos hoje, como é sabido, a obra parada. Exactamente como estava no dia 29 de Setembro de 2013, que foi o dia das eleições autárquicas que o actual presidente venceu, como independente, depois de dois mandatos consecutivos, pelo Partido Socialista, à frente da mesma Junta de Freguesia.
Esta referência ao passado político do actual presidente não é irrelevante, por dois motivos:
– o primeiro, de menor importância para o que aqui nos traz, porque a forma como o actual presidente veio a manifestar (e posteriormente concretizou) a sua intenção de recandidatar-se diz muito sobre o seu carácter;
– o segundo, porque o tabu entretanto criado sobre a sua recandidatura teve o seu fim precisamente “numa visita às obras de abertura de um novo arruamento”, como referiu o Terras da Feira, em Julho de 2013 – onde o “novo arruamento” referido é este mesmíssimo arruamento! Acredite-se ou não, esta foi efectivamente a obra em frente à qual onde o senhor presidente da Junta decidiu posar, junto de alguns colaboradores próximos e também do então candidato a Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, no dia em que anunciou a sua candidatura como independente.
Dito de outra forma: o actual presidente da Junta, que havia já conduzido os destinos da freguesia durante os dois mandatos que antecederam o actualmente em curso, e em cujo decorrer do segundo despoletou a obra de construção do arruamento em questão, vem agora dizer que não há viabilidade financeira para retomar o normal andamento da obra.
Não me parece que ninguém devesse ou pudesse conhecer melhor os detalhes financeiros daquela obra do que o próprio presidente da Junta, a cuja realização deu – repito – um oportuno pontapé de saída, e que dela se serviu – repito também – como cenário para a sua propaganda autárquica, fazendo os eleitores de São João de Ver crer que aquela não se tratava de uma obra qualquer.
Ocorre-me, assim, que:
– se a obra parou por se ter detectado, a meio do percurso, que afinal já não havia verba, então parece-me que alguém não fez bem as contas e – ainda por cima ao ter usado aquela obra como porta-estandarte de uma missão autárquica – devia claramente ter tido mais cuidado;
– se, por outro lado, as contas da obra derivaram de uma análise financeira cuidada, como são as análises financeiras que as obras públicas exigem, e já se sabia desde o início que não haveria verba, então alguém mentiu deliberadamente aos eleitores, ao vangloriar-se por antecipação por uma obra que já se sabia ir ser obrigada a parar a meio.
Não acredito em nenhuma daquelas coisas (aliás, se acreditasse também não o diria, porque se o dissesse, o senhor presidente da Junta ainda pedia a um amigo para pedir à Polícia para vir a minha casa multar-me!), mas acredito no seguinte: mesmo que não haja, de facto, verba disponível hoje, aquela verba será cirurgicamente disponibilizada para um cortar de fita à maneira, num evento durante o qual o senhor presidente da Junta e sua equipa poderão voltar a posar, no mesmo local (se bem que com o piso já asfaltado!), a tempo da impressão das brochuras autárquicas com que depois virão entupir a caixa do correio dos eleitores de São João de Ver.
Vale uma aposta?