Por…Paulo Rodrigues

Quando comecei esta minha missão associativa, efetivamente, tudo era, ou parecia, muito mais simples. Havia mais tempo e disponibilidade para as atividades associativas. As instituições e estruturas associativas tinham um funcionamento mais célere e talvez mais assertivo. As sedes, não eram simples edifícios frios e sem gente, tinham vida. De certa forma, todos queriam participar ativamente no associativismo e, por isso, os projetos apareciam de uma forma muito fluída. A própria aderia em massa aos eventos promovidos pelas associações e muitíssimas vezes intervinha com as suas ideias e opiniões, desafiando os dirigentes a melhorar, a fazer cada vez mais e melhor. Sem dúvida que esse tempo foi de grande importância para fazer crescer o movimento associativo. Veja-se, por exemplo, todas as obras que foram feitas, bem como os projetos que apareceram e que ainda hoje se mantêm. Nada disto teria sido possível sem a grande disponibilidade e a força empreendedora de homens e mulheres que assumiram o papel social de dirigentes associativos.

Ao longo dos anos essa disponibilidade social de participação dos cidadãos tem vindo a diminuir. Muitas razões estarão na base dessa diminuição, todavia a mais premente é que os mais jovens parecem já não acreditar no associativismo. São poucos aqueles que, na verdade, se interessam pela questão associativa. Hoje, pela visibilidade que lhes proporciona, os jovens estão mais dispostos a participarem em estruturas das associações de estudantes ou de juventudes partidárias. Não vêm mal nenhum ao mundo por assim. Aliás considero até que é importante os jovens estarem despertos para as questões políticas de modo a saberem exercer a sua cidadania de forma democrática. Sem querer ferir suscetibilidades, considero todavia que os jovens que abraçam a causa associativismo, potencialmente, ganham muito mais e experiência do que aqueles que não o fazem, ou que se dedicam apenas à visão política da sociedade. Nas associações os jovens são chamados a intervir e a agir, tomando decisões, executando projetos em contexto real, obtendo, assim, todo um manancial de experiências de vida muito importantes para o seu futuro.

Mas os tempos mudam e todos nós temos de nos adaptar as essas mudanças. Hoje as associações têm que ter como preocupação primeira a sua sustentabilidade, tanto a nível social como financeiro. Para isso têm de ter uma gestão muito mais rigorosa, respeitar um sem número de exigências, apostar nas plataformas informáticas e digitais. O movimento associativo atual está em permanente avaliação. As próprias leis que regulam o associativismo estão sempre a mudar, estabelecendo um sem número de indicadores de avaliação da nossa atividade. Tudo isto é a evolução dos tempos. E temos que nos preparar pois, cada vez mais, é solicitado que gestão associativa, em termos financeiros e contabilísticos, tenha um papel muito idêntico às empresas, com regras burocráticas a cumprir.

Pese embora esse lado mais formal e institucional do associativismo, é também um facto que continuamos a ter a relevância social do papel que desempenhamos. Somos reconhecidos por acolher os jovens e adultos nos nossos espaços, dando-lhes liberdade e autonomia para colocar em prática as suas ideias e projetos, fomentando o espirito de amizade e liderança. Somos um espaço de lazer e convívio social para quem, nas associações, procura um escape do stress quotidiano. As nossas actividades geram receitas, geram impostos. Fazemos parte da economia local. Defendemos o património e identidade cultural das nossas terras. Mais importante: somos a garantia do acesso democrático à cultura e ao desporto.

Esta é a realidade do tempo presente. Um tempo em que cada vez mais somos chamados a dar mais de nós próprios. Um tempo em que sacrificámos as nossas famílias, as nossas profissões (o ganha-pão), para sermos quase profissionais do associativismo. É por isso o tempo de estarmos atentos a tudo o que se passa a nossa volta. O tempo em que os poderes locais e governamentais têm de olhar para nós e perceberem que fazemos falta, pois, como eu sempre aprendi, somos associações de voluntários capazes de “fazer milagres, fazendo muito, com muito pouco“.